quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Festival Toni Cunha tem histórias nos palcos e nos bastidores

Dois Amores e Um Bicho - foto Marcos Porto
Fazer teatro é compartilhar histórias e o Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha tem muitas para contar. Recém chegada a Itajaí, Andréa Almeida Rosa veio de Curitiba na época em que acontecia o primeiro Festival. Justamente naquele ano, ela havia tomado a decisão de largar a carreira de atriz. Ao se deparar com a grandiosidade do evento, repensou sua decisão.

"Fui completamente surpreendida com um Festival tão grande e completo numa cidade pequena. Fiquei feliz de participar como expectadora de um momento tão bacana no município, isso serviu de estímulo para minha carreira de atriz", revela Andrea.

Esse é apenas um exemplo de como o teatro pode servir de instrumento de transformação para a comunidade. Segundo Max Reinert, dramaturgo e representante da Câmara Setorial de Teatro de Itajaí, a diversidade de linguagens e de formatos também faz com que o Festival Toni Cunha se espalhe pela cidade e conquiste novos públicos. “Teatro e Itajaí formam uma combinação perfeita”, destaca.

Agora com a sólida carreira de atriz, Andrea não é mais simplesmente aquela espectadora do primeiro Festival, mas parte ativa desta quinta edição. Nesta sexta-feira (27), ela apresenta o espetáculo “Dois Amores e Um Bicho - versão nº 2” na Itajaí Criativa - residência artística, às 21h. O texto foi escrito há mais de 10 anos, mas a atriz defende que a interpretação dele é mais urgente nos dias atuais que na época de sua criação.

"O espetáculo abre reflexão sobre intolerância, banalização da violência, questão de gênero e outros temas que nos dias atuais mais do que nunca precisam ser debatidos", comenta.

O Festival de Teatro segue até domingo (29). Aproveite os últimos dias para prestigiar a programação do evento que é referência nacional. Todos os espetáculos fora do Teatro Municipal são gratuitos.

O Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha é bianual e faz parte do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac / Lei Rouanet), com patrocínio de Lojas Havan, Brasfrigo S.A., Banco do Brasil e Bompack.

PROGRAMAÇÃO SEXTA-FEIRA

Dia 27/10 (sexta) - 11h
Roda de Conversas: Diálogos sobre a Cena

Sinopse: Com a presença de Toninho do Valle e Marco Vasques, este será um espaço para trocar impressões sobre os espetáculos assistidos durante o festival, com ênfase na produção local. Mais do que um espaço de avaliação, é um momento para exercitar o olhar sobre o fazer teatral, seus caminhos e conceitos. Um momento de encontro aberto aos artistas, estudantes de teatro e também para o público interessado em saber mais sobre os modos de produção no teatro.
Espetáculos locais do dia: Estapafúrdio (Charles Augusto), Apto 401 (Grupo Porto Cênico) e Berlim (Karma Cia. de Teatro)

Local: Casa da Cultura Dide Brandão
Classificação Indicativa: Livre
Duração: 60 min
Observações: Espaço indicado para estudantes de artes, atores e interessados em processos criativos.
Valor: GRATUITO

Dia 27/10 (sexta) - 15h
Mostra Local
Espetáculo: Um, Dois, Três: Alice!
Téspis Cia. de Teatro (Itajaí – SC)

Sinopse: Livremente inspirado em "Alice no País das Maravilhas" e "Alice Através do Espelho" de Lewis Carroll, esta montagem explora a ludicidade tanto no jogo corporal dos atores como no uso de objetos em cena. Para contar a aventura de Alice que mergulha em um mundo cheio de enigmas e fantasias lança mão de diversos elementos, como: cenários que se movem e se transformam em diversos ambientes, objetos de brinquedo que ajudam a compor os personagens e a utilização de projeção de vídeos. O Coelho Apressado, A Rainha de Copas, A Duquesa, A Lagarta, O Chapeleiro Maluco, Os Animais da Floresta, As Cartas de Baralho e Alice, encontram-se novamente para recontar essa história que tem mais de 150 anos, mas não deixa de encantar crianças e adultos.

Local: SESC Itajaí
Classificação Indicativa: Livre
Duração: 45 min
Valor: GRATUITO - retirar ingresso uma hora antes


Dia 27/10 (sexta) - 20h
Mostra Nacional
Espetáculo: DADESORDEMQUENÃOANDASÓ
Cia. Arteira e Cia. Provisório Definitivo - São Paulo, SP

Sinopse: A peça narra a história de Stevie, um garoto portador da Síndrome de Asperger, que sofre com a ausência do seu pai e com a dificuldade de se relacionar com o mundo. Devido à falta do marido, Maureen, a mãe, trabalha em diversos lugares e não tem tempo para cuidar dos filhos. Stevie passa grande parte dos seus dias em casa, enquanto sua irmã, a adolescente Julie, faz tentativas desastradas de entrar no mundo adulto. Um dia, Julie resolve sair escondida, descumprindo o combinado com sua mãe. Preocupado com o paradeiro da irmã, Stevie decide procurá-la e acaba indo parar em um parque de diversões e, sem intenção, causa um grande acidente: ele acredita ter se tornado um assassino. A partir daí, inicia-se uma história permeada de encontros e desencontros que mistura ficção, realidade e poesia, na qual Stevie procura compreender, solitário, as consequências dessa intensa e transformadora travessia.

Local: Teatro Municipal de Itajaí
Classificação Indicativa: 14 anos
Duração: 75 min
Valor: R$ 20 inteira e R$ 10 meia


Dia 27/10 (sexta) - 21h
Mostra Local
Espetáculo: Dois Amores e Um Bicho - versão nº 2
Cia. Experimentus Teatrais (Itajaí – SC)

Sinopse: Uma bomba explode em uma escola, um pai de família mata seu cachorro a pontapés por considerá-lo homossexual, misteriosas mortes de animais em um jardim zoológico. Em seu habitat, a família Estefano está às voltas com estes acontecimentos brutais do passado e do presente. Em um jogo perverso, eles encenam e reencenam incidentes que melhor seria se ficassem esquecidos.

Local: Itajaí Criativa - residência artística
Classificação Indicativa: 14 anos
Duração: 75 min
Valor: GRATUITO - retirar ingresso uma hora antes

Crítica: Dois Amores e Um Bicho - versão nº2

Dois Amores e Um Bicho - foto Marcos Porto
DOIS AMORES E UM BICHO – A ALEGORIA DA CRUELDADE
por Marco Vasques

Fundada em 1999, a Cia. Experimentus é uma das companhias mais longevas de Itajaí. Já montou 15 espetáculos para crianças, jovens e adultos. Desde o começo vem participado de inúmeros festivais e mostras nacionais. Sua última montagem é o texto Dois Amores e Um Bicho, do venezuelano Gustavo Ott. Na verdade, trata-se de uma segunda montagem que o grupo empreende da mesma obra com outro recorte estético.

Ott, um dos mais proeminentes dramaturgos latino americanos, atua também como romancista, diretor teatral e jornalista. Desde a década de 1980 até agora, vem escrevendo e dirigindo inúmeros espetáculos, colecionando prêmios e sendo montado em diversos países. Com 54 anos, profícuo e incansável, Ott já tem mais de trinta obras que refletem sob diversos ângulos aspectos da vida cotidiana, sobretudo as violências, as censuras, as hipocrisias que praticamos e das quais somos vítimas também.

Dois Amores e Um Bicho - foto Marcos Porto
Com Dois Amores e Um Bicho não é diferente. A peça estreou em 2004, em Caracas, sob sua direção. Nesses últimos anos, a dramaturgia já foi encenado em Cuba, França e no Brasil. O texto trata dos fascismos cotidianos que nos atingem e que estão cada vez mais fortalecidos, mas, ao mesmo tempo, revela as profundas contradições e delicadezas de cada personagem.

Um orangotango preso num zoológico acusado de praticar sexo com outro orangotango. Um cachorro é assassinado por seu dono por ser considerado homossexual. Uma bomba que explode numa escola matando centenas de pessoas durante uma festa. Os animais de um zoológico são dizimados, aos poucos, misteriosamente. Uma imprensa faminta, uma polícia dúbia em suas ações e um conflito familiar velado que aos poucos vai revelando ao público suas instâncias de desejos e vontades não assumidas. O mundo alegórico criado por obras como A metamorfose, O rinoceronte, A revolução dos Bichos, ganha mais um espaço com esse Dois amores e um bicho, pois são muitas as questões contemporâneas a serem exploradas.

A montagem da Cia. Experimentus apresentada no espaço cultural Itajaí Criativa - residência artística, durante o 5º Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, não se furta em tangenciar as sutilezas e as questões mais evidenciadas do texto. O primeiro mérito da montagem se encontra na direção, de Daniel Olivetto, que soube nuançar a ironia amarga proposta por Ott, manter a tensão exigida ao núcleo familiar e equilibrar os recursos cênicos escolhidos. Se a proposta do dramaturgo venezuelano é uma crítica ácida e aberta ao mundo contemporâneo ela também reserva muitas sutilezas por alegoria e o grupo joga com isso em muitos momentos, sejam com os vídeos selecionados para abrir e fechar cada quadro, seja na atmosfera propiciada pela iluminação, trilha sonora e atuação.

Em uma das cenas em que Pablo interpretado pelo ator Marcelo de Souza, e Karen, vivida pela atriz Sandra Konll, travam um diálogo no zoológico há a presença de uma criança em seu carrinho de bebê. A criança, em verdade, é simbolizada por uma zebra, o que dá a chave sutil de afirmar, de forma metafórica e alegórica, que sabemos de quais bichos estamos tratando, do bicho humano e suas animalidades e cruezas.

Sandra Knoll consegue fugir à estrutura linear de interpretação o que não ocorre com Andréa Rosa e Marcelo de Souza. A opção por uma linearidade interpretativa é nitidamente uma proposta do grupo, não necessariamente um problema, no entanto, os tensionamentos e as surpresas do trabalho se esvaziam um pouco, pois o público é jogado, de início, numa vibração e seguirá nela durante todo o espetáculo, o que se por um lado dialoga com os tempos esticados, duros, acirrados em que vivemos, causa, por outro lado, uma impressão de que os atores não dispõem de recursos para algumas variações rítmicas exigidas no trabalho.

Dois Amores e Um Bicho se apresenta como um caleidoscópio de sugestão, não incorre em apelos fáceis, em estampar a violência de maneira simples e vulgar. Oferece ao espectador a possibilidade de adentrar em vários universos, várias camadas e se constitui, inteligentemente, em uma obra aberta sem incorrer no perigo de cair na violência caricata e na vulgarização das relações.
Dois Amores e Um Bicho - foto Marcos Porto

FICHA TÉCNICA
Texto: Gustavo Ott
Tradução: Marialda Gonçalvez Pereira
Elenco: Andréa Rosa, Marcelo de Souza e Sandra Knoll
Direção: Daniel Olivetto
Edição de Som e Vídeo: Marcelo de Souza
Cenário, desenho de luz, trilha sonora e projeto gráfico: Daniel Olivetto
Figurinos: Cia. Experimentus
Operação técnica: Daniel Olivetto e Natália Pereira

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Crítica: Pô!Ema

Pô!Ema - criação poética para crianças - foto Marcos Porto
Pô!EMA – QUANDO A "OUTRA VOZ" NÃO É OUVIDA
por Marco Vasques

Quando um espetáculo resulta no seu contrário, isto é, quando ele contradiz sua proposição política, ética e estética, pode-se assegurar que faltou pesquisa, laboratório, experimentação, investigação e, também, uma certa ausência de responsabilidade dos encenadores. Outra hipótese possível nesses casos é a de que o projeto de encenação se impõe maior que as possibilidades do grupo. Uma terceira via pode sugerir que o coletivo não tem clareza de seus propósitos, mas esse caso não se aplica aqui. Em ambos os casos iniciais, não há soluções fáceis. O negócio é enfrentar o problema, antes que ele possa ruir as estruturas pensadas e projetadas. Se construir um espetáculo a partir de poemas se mostra um desafio, imaginemos a complexidade de um espetáculo que se propõe a criar poemas com uma plateia em fase de alfabetização e, a partir daí, erguer a sua partitura dramatúrgica e de atuação.

PÔ!EMA, apresentado no teatro do SESC durante o 5º Festival Nacional de Teatro Toni Cunha, tem essa pretensão. Ocorre que a poesia é uma arte que não se faz com ideias, conforme sugestão do poeta francês Mallarmé. Poesia, para ele, se faz com palavras. Entrar no reino silente das palavras e de lá erguer ressonâncias, espinhos, solaridades é uma das tarefas do poeta.

Para Octavio Paz, em seu livro O Arco e a Lira, a poesia parece ser um mundo abarcador de tudo, um mundo salvador capaz de dar conta dos paradoxos, dos contrários, das efemérides e perenidades da vida, um mundo ilusoriamente completo, pois para cada definição de Paz reverberam infinitas definições não citadas, escondidas na impossibilidade de trazê-las à luz. Portanto, se o poético é aquilo que tem qualidade, atmosfera, encantos da poesia, ele também se instala numa infinitude de lugares. Qualquer tentativa de encaixotá-lo numa definição é resumir a sua amplitude. Mas é sempre preciso fazer um corte, escolher um caminho, perpetrar uma violência para estabelecer um fio condutor do que seja uma definição do poético.

O poético pode ser conceituado também como uma inquietação, uma fricção que provoca o sujeito a ponto de retirá-lo do eixo, da normalidade, algo que suspenda a sua estagnação, que o turbilhone e lhe diga: isso é estar vivo. Esta fricção, pode vir do belo artístico, assumindo aqui a concepção de Hegel em que o belo artístico é superior ao belo natural, pois trata-se de um produto do espírito humano, superior à natureza.

Assim, um vulcão, por exemplo, é um espetáculo de beleza incomparável, mas não é fruto do espírito, ou da criatividade humana, é um acontecimento que segue regras próprias da natureza. Já pintar, fotografar, poetizar, filmar esse vulcão, e principalmente, como ele afeta a atividade humana, traz o belo natural para dentro do corpo, o transforma em arte. O artista estabelece um olhar, um corte, um ângulo e, após a produção, repassa esse olhar ao espectador, leitor, consumidor da obra, que também o recorta, o angula, o expande em seu próprio corpo e se agiganta, ou se apequena diante do poético e de como ele lhe invade física e espiritualmente.

Por outro lado, o poético pode vir também da outra face do belo: o feio, o grotesco, a violência que pulsa a animalidade nem sempre tão perdida do homem. Nem sempre o sublime existe na acepção ligada ao encantamento, à leveza (vide Genet, Artaud, Koltès, Plínio Marcos). Ainda mais no mundo atual, onde muitos dos conceitos clássicos de beleza se perderam há muitas décadas, onde não há mais sentido, pois o sentido do mundo passou a ser o seu contínuo não-sentido. Um mundo em que os corpos são chagas abertas, em que há uma uniformização de “corpos de miséria, corpos famintos, corpos batidos, corpos prostituídos, corpos mutilados, corpos infectados, corpos inchados, corpos demasiado alimentados, demasiado body-builded, demasiado excitantes, demasiado orgásticos”, conforme sentencia o filósofo Jean-Luc Nancy. Essas são algumas das questões que aparecem quando adentramos no mundo da poesia, do poema, do poético.
Pô!Ema - criação poética para crianças - foto Marcos Porto


PÔ!EMA é estruturado numa dinâmica em que a atriz Sandra Coelho conduz o público de uma escrivaninha onde escreve seus poemas que são comidos por uma Ema, a atriz provoca o público infantil a ajudá-la a escrever para sustentar uma Ema e sua prole. O trabalho sugere que a personagem de Sandra Coelho seja uma escritora em crise no seu processo de criação, já que seus poemas são devorados pela Ema, que pode nesse caso simbolizar o momento de esvaziamento criativo pelo qual todo artista um dia passará. Mas a Ema poderia ganhar, também, outros contornos e funções que dinamizasse o diálogo que a atriz propõe com os pequenos. A questão a se colocar é que a noção de poesia apresentada por Sandra Coelho consiste numa linguagem que foge ao universo poético, que estrangula a possibilidade de poesia, porque se apresenta numa linguagem referencial, numa linguagem denotativa que se empobrece mais e mais porque não há nenhum chamamento do público para o universo lúdico, para brincar efetivamente com as palavras, para encontrar outros modos de dizer o mundo. O que impera em PÔ!EMA é a noção clichê de poesia bonitinha, de palavras que combinam pela rima atrelada a uma função da linguagem explicativa. O trabalho se propõe aberto, mas se apresenta fechado, encaixotado, não permitindo ao público infantil mais que uma relação passiva diante do acontecimento à sua frente.

Os corpos teatrais são muitos e suas investigações e potencialidades de linguagens também, mas é preciso mergulhar no reino da teatralidade antes de fazer o mergulho no espectador. É preciso investigar, experimentar, buscar uma voz - a “outra voz”, para usar uma expressão de Octávio Paz - e um norte, ainda que não totalmente explorado e delimitado, porque um artista de palco não deve negligenciar seu labor, sua luta com as palavras e com os corpos antes de provocar o encontro com seu público.


FICHA TÉCNICA

Criação original: Sandra Coelho e Leandro Maman
Atuação: Sandra Coelho
Design gráfico e de projeção: Leandro Maman
Trilha sonora: “As Meias de Ema” por Cirandela Teatro, letra de Eloí Bocheco
Pô!Ema - criação poética para crianças - foto Marcos Porto

Espetáculos gratuitos reforçam a democratização do Festival Toni Cunha


A 5ª edição do Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha está a todo vapor. Com espetáculos diários, oficinas e rodas de conversa, a maior parte da programação é gratuita. O evento da Fundação Cultural de Itajaí segue até domingo (29) com atividades para toda a família.

De acordo com Charles Henrique, o palhaço profissional mais conhecido de Itajaí, o Festival de Teatro mantém, desde sua primeira edição, o caráter de transbordar cultura na cidade. "O evento traz uma grande quantidade de manifestações artísticas na cidade e promove intercâmbio cultural de forma efetiva num curto tempo e espaço", relembra.

Espetáculos de rua e outros gratuitos são a maioria na programação do Festival. Dessa forma, qualquer pessoa pode ter acesso às atividades promovidas pelo evento. "Acessibilidade no teatro, assim como apresentações na rua, servem para interagir com a população sem discriminação e forma uma platéia democrática", comenta Charles que apresenta o espetáculo Estapafúrdio na quinta-feira (26) na Praça Arno Bauer às 15h.

Por decisão da Fundação Cultural de Itajaí, espetáculos realizados fora do Teatro Municipal têm distribuição gratuita de ingressos. Nesta quarta-feira (25), "Dois amores e Um Bicho - versão n° 2" é um espetáculo da Cia Experimentus de Itajaí, que poderá ser assistido na Itajaí Criativa - residência artística, por qualquer pessoa que retirar o ingresso a partir das 20h. A peça começa às 21h.

O Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha é bianual e faz parte do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac / Lei Rouanet), com patrocínio de Lojas Havan, Brasfrigo S.A., Banco do Brasil e Bompack. Ele segue com sua programação em andamento e você pode conferir a programação completa abaixo:

Dia 26/10 (quinta) - 15h
Mostra Local
Espetáculo: Estapafúrdio
Charles Augusto (Itajaí – SC)

Sinopse: Mambembear. Aí está a essência do artista. Levar sua arte a qualquer lugar onde alguém esteja disposto a apreciá-la. Pacacoenco, na companhia da sua amiga Jaguaruna, desbrava o interior da geografia mundial e do coração humano. As estradas são percorridas a pedaladas, e, na bagagem, o palhaço leva seus truques, sua casa e seu amor. Afinal, “... a poesia indica que as eras do universo passam e o homem que ama fica.” (Quirino)
Local: Praça Arno Bauer - ao lado do Museu Histórico
Classificação Indicativa: Livre
Duração: 40 min
Valor: GRATUITO


Dia 26/10 (quinta) - 19h
Mostra Local 
Espetáculo: Apto 401
Grupo Porto Cênico (Itajaí – SC)

Sinopse: Festa de aniversário é um espetáculo em si mesmo, um evento-soluço no cotidiano. No “Apto 401” haverá chapeuzinhos, bolo, bebidas, língua de sogra... Ela assoprará as velas. Venha, você é a convidada. Venha, você é o convidado.
Local: SESC Itajaí
Classificação Indicativa: 16 anos
Duração: 50 min
Valor: GRATUITO - retirar ingresso uma hora antes


Dia 26/10 (quinta) - 20h
Mostra Nacional
Espetáculo: O Dragão de Fogo
SIM! Cultura (Campinas – SP)

Sinopse: Um menino desenhista enfrenta um dragão que, desperto de seu sono de séculos, ameaça destruir a sua aldeia. Ou: um garoto é sorteado entre todos os homens da aldeia para enfrentar uma terrível ameaça, preservando-se, assim, uma tradição: todos a qualquer momento têm de estar prontos. Isso é tudo.Mas não é só. Ou não é solitário: haverá ainda seus pais, o primeiro amor, a esperança de aldeães, um rato encontrado furtivamente na morada do perigo. Haverá sempre a possibilidade do desenho e aquilo que ele pode revelar: a coisa mais forte do mundo!
Local: Teatro Municipal de Itajaí
Classificação Indicativa: Livre para toda família
Duração: 60 min
Valor: R$ 20 inteira e R$ 10 meia


Dia 26/10 (quinta) - 21h
Mostra Local
Espetáculo: Berlim - dois corpos à procura
Karma Cia. de Teatro (Itajaí – SC)

Sinopse: Dois corpos à procura de um lugar. Na busca pela felicidade sufocada por entre muros, paredes que aprisionam ou ruas de Berlim. Dois corpos à procura de aceitação. Viver a tragédia diária de ser o que é. Falar, gritar. Fugir. Dois corpos desejados. Dois corpos desejantes. Chegar em Berlim e dançar o inevitável jeito de ser. O que você quer de Berlim?
Local: SESC Itajaí
Classificação Indicativa: 16 anos
Duração: 45 min
Valor: GRATUITO - retirar ingresso uma hora antes


Dia 27/10 (sexta) - 11h
Roda de Conversas: Diálogos sobre a Cena

Sinopse: Com a presença de Toninho do Valle e Marco Vasques, este será um espaço para trocar impressões sobre os espetáculos assistidos durante o festival, com ênfase na produção local. Mais do que um espaço de avaliação, é um momento para exercitar o olhar sobre o fazer teatral, seus caminhos e conceitos. Um momento de encontro aberto aos artistas, estudantes de teatro e também para o público interessado em saber mais sobre os modos de produção no teatro. Espetáculos locais do dia: Estapafúrdio (Charles Augusto), Apto 401 (Grupo Porto Cênico) e Berlim (Karma Cia. de Teatro)
Local: Casa da Cultura Dide Brandão
Classificação Indicativa: Livre Duração: 60 min
Observações: Espaço indicado para estudantes de artes, atores e interessados em processos criativos.
Valor: GRATUITO

Dia 27/10 (sexta) - 15h
Mostra Local
Espetáculo: Um, Dois, Três: Alice!
Téspis Cia. de Teatro (Itajaí – SC)

Sinopse: Livremente inspirado em "Alice no País das Maravilhas" e "Alice Através do Espelho" de Lewis Carroll, esta montagem explora a ludicidade tanto no jogo corporal dos atores como no uso de objetos em cena. Para contar a aventura de Alice que mergulha em um mundo cheio de enigmas e fantasias lança mão de diversos elementos, como: cenários que se movem e se transformam em diversos ambientes, objetos de brinquedo que ajudam a compor os personagens e a utilização de projeção de vídeos. O Coelho Apressado, A Rainha de Copas, A Duquesa, A Lagarta, O Chapeleiro Maluco, Os Animais da Floresta, As Cartas de Baralho e Alice, encontram-se novamente para recontar essa história que tem mais de 150 anos, mas não deixa de encantar crianças e adultos.
Local: SESC Itajaí
Classificação Indicativa: Livre
Duração: 45 min
Valor: GRATUITO - retirar ingresso uma hora antes


Dia 27/10 (sexta) - 20h
Mostra Nacional
Espetáculo: DADESORDEMQUENÃOANDASÓ
Cia. Arteira e Cia. Provisório Definitivo - São Paulo, SP

Sinopse: A peça narra a história de Stevie, um garoto portador da Síndrome de Asperger, que sofre com a ausência do seu pai e com a dificuldade de se relacionar com o mundo. Devido à falta do marido, Maureen, a mãe, trabalha em diversos lugares e não tem tempo para cuidar dos filhos. Stevie passa grande parte dos seus dias em casa, enquanto sua irmã, a adolescente Julie, faz tentativas desastradas de entrar no mundo adulto. Um dia, Julie resolve sair escondida, descumprindo o combinado com sua mãe. Preocupado com o paradeiro da irmã, Stevie decide procurá-la e acaba indo parar em um parque de diversões e, sem intenção, causa um grande acidente: ele acredita ter se tornado um assassino. A partir daí, inicia-se uma história permeada de encontros e desencontros que mistura ficção, realidade e poesia, na qual Stevie procura compreender, solitário, as consequências dessa intensa e transformadora travessia.
Local: Teatro Municipal de Itajaí
Classificação Indicativa: 14 anos
Duração: 75 min
Valor: R$ 20 inteira e R$ 10 meia


Dia 27/10 (sexta) - 21h
Mostra Local
Espetáculo: Dois Amores e Um Bicho - versão nº 2
Cia. Experimentus Teatrais (Itajaí – SC)

Sinopse: Uma bomba explode em uma escola, um pai de família mata seu cachorro a pontapés por considerá-lo homossexual, misteriosas mortes de animais em um jardim zoológico. Em seu habitat, a família Estefano está às voltas com estes acontecimentos brutais do passado e do presente. Em um jogo perverso, eles encenam e reencenam incidentes que melhor seria se ficassem esquecidos.
Local: Itajaí Criativa Residência Artística
Classificação Indicativa: 14 anos
Duração: 75 min
Valor: GRATUITO - retirar ingresso uma hora antes


Dia 28/10 (sábado) - 11h
Roda de Conversas: Diálogos sobre a Cena

Sinopse: Com a presença de Toninho do Valle e Marco Vasques, este será um espaço para trocar impressões sobre os espetáculos assistidos durante o festival, com ênfase na produção local. Mais do que um espaço de avaliação, é um momento para exercitar o olhar sobre o fazer teatral, seus caminhos e conceitos. Um momento de encontro aberto aos artistas, estudantes de teatro e também para o público interessado em saber mais sobre os modos de produção no teatro. Espetáculos locais do dia: Um, Dois, Três: Alice! (Téspis Cia. de Teatro) e Dois Amores e Um Bicho (Cia. Experimentus)
Local: Casa da Cultura Dide Brandão
Classificação Indicativa: Livre
Duração: 60 min
Observações: Espaço indicado para estudantes de artes, atores e interessados em processos criativos.
Valor: GRATUITO

Dia 28/10 (sábado) - 15h
Mostra Nacional
Espetáculo: O Gigante Egoísta
Artesanal Cia. de Teatro (Rio de Janeiro – RJ)

Sinopse: Depois de passar sete anos na casa de seu amigo Ogro, o Gigante descobre que crianças invadiram seu palacete para brincar em seu jardim. Ele expulsa as crianças de sua propriedade e constrói um muro que a separa do resto da cidade. Isolado e sozinho, o Gigante percebe que o inverno hospedou-se definitivamente em sua casa e que a primavera recusa-se a voltar ao seu jardim, agora eternamente coberto pelo gelo e pela neve. Porém achegada de um menino que resolve brincar no jardim, apesar da sua proibição, traz de volta a primavera e faz com que o Gigante reconheça o quanto tinha sido egoísta.
Local: Teatro Municipal de Itajaí
Classificação Indicativa: Livre - recomendado a partir de 5 anos
Duração: 50 min
Valor: R$ 20 inteira e R$ 10 meia


Dia 28/10 (sábado) - 19h e 21h
Mostra Nacional
Espetáculo: Kiwi
Projeto Grande Elenco (São Paulo – SP)

Sinopse: KIWI acontece em meio ao processo de reurbanização imposta aos moradores de uma cidade para a realização dos Jogos Olímpicos. Uma garota, abandonada por sua família após o desalojamento. Nas ruas ela conhece a Família Verde: uma turma de crianças e adolescentes que assumem nomes de frutas e legumes. Eles acolhem a novata, desde que ela respeite suas regras: esquecer seu antigo nome e colaborar para subsistência do grupo por todos os meios. Apenas uma coisa é proibida: matar. Batizada de Kiwi, ela precisará aprender a viver na selva urbana. Como sobreviver à fome, ao frio, às doenças e às drogas? A resposta vem através da assistência mútua dentro do clã e, especialmente, da proteção de seu companheiro Lichia. Eles brincam com jogos de faz-de-conta impossíveis, admiram os pássaros brancos que voam no céu e sonham com o lar que a comunidade pretende comprar.
Local: SESC Itajaí
Classificação Indicativa: 12 anos
Duração: 60 min
Valor: GRATUITO - retirar ingresso uma hora antes



Dia 28/10 (sábado) - 20h
Mostra Nacional
Espetáculo: Momo - para Gilda com Ardor
O Estábulo de Luxo e Selvática Ações Artísticas (Curitiba – PR)

Sinopse: Em seu primeiro trabalho solo, Ricardo Nolasco se apresenta como o artista híbrido que é (da performance, situacionista, poeta, artista de cabaré e do teatro experimental). Através do estudo da obra de Alejandro Jodorowsky, o processo remapeia a cidade de Curitiba na busca por Gilda (travesti mendiga famosa nas ruas do centro de Curitiba nos anos 70, morta em 1983) buscando construir uma nova possibilidade para o real através da ficção. Pés marcados no cimento quase duro de uma política de revitalização. No corpo do performer entrelaçam-se mitologias, memórias, percursos, vidas, acontecimentos. E um recipiente alquímico - encruzilhada - lápide sacrificial. Carta manifesto psicomagia rito jocoso carregada de sarcasmo e ironia. Um espetáculo bufo. Uma tragédia pós pré - dramática. Uma opereta work in progress xamã. Ditirambo. Peça a fantasia. Vida vagabunda, destino vadio, carne de carnaval. Gilda é puro Jazz!
Local: Teatro Municipal de Itajaí
Classificação Indicativa: 18 anos
Duração: 60 min
Valor: R$ 20 inteira e R$ 10 meia


Dia 29/10 (domingo) - 17h
Mostra Nacional
Espetáculo: Simão e o Boi Pintadinho
Teatro de Mamulengo do Mestre Valdeck de Garanhuns (Guararema – SP)

Sinopse: Seu Vicente Pompeu vai realizar uma grande festa para comemorar o casamento de sua filha e entrega toda produção para Simão e Marieta que são seus afilhados e administradores da fazenda. A festa deve ser bem popular, com culinária e atrações artísticas que agradem toda comunidade. Aparecem uns intrusos querendo mudar tudo e Simão tem que fazer muitas peripécias para que a festa seja realizada.
Local: Praça Genésio Miranda Lins - Beira Rio
Classificação Indicativa: Livre
Duração: 60 min
Valor: GRATUITO

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Crítica: Evocando os Mortos

Evocando os Mortos - foto Marcos Porto
EVOCANDO OS MORTOS - POÉTICA DA EXPERIÊNCIA: RITUAL E RESISTÊNCIA
por Marco Vasques

Utopia, paixão e resistência”, essa é a fundamentação teórica, ética e poética da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, uma das mais longevas e sólidas companhias teatrais do Brasil. Nascida em março de 1978, a companhia permaneceu coerente com a revolução poética do teatro. Quarenta anos depois, com mais de 30 espetáculos no repertório, a Tribo de Atuadores permanece atenta e atuante, apostando sempre no teatro de rua como espaço capaz de encampar o triunvirato utopia, paixão e resistência. A cada espetáculo, a companhia se aprofunda na pesquisa estética e propõe novos caminhos, outros atalhos, perspectivas outras para que a obra seja capaz de chegar ao público, pegá-lo por dentro e transformá-lo de alguma maneira e em alguma instância.  

O 5º Festival Nacional de Teatro Toni Cunha fez sua abertura com o espetáculo Caliban – a Tempestade de Augusto Boal. Trabalho de rua que evoca os tempos sombrios aos quais precisamos resistir e que remete aos nascimentos e morredouros da América Latina. Ontem, o Teatro do Sesc recebeu Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência. Conceituado de desmontagem pela Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, o acontecimento teatral revela o processo criativo da atriz Tânia Farias,com base em pesquisas para os espetáculos Kassandra In Process; Viúvas: Performance Sobre a Ausência; Hamlet Máquina e A Missão – Lembrança de Uma Revolução. A atriz também revela algo sobre Medeia Vozes.
Evocando os Mortos - foto Marcos Porto

O monólogo tem como pressuposto um diálogo íntimo entre a atuadora e o público. Tânia Farias faz uma espécie de diário compartilhado e começa a revelar a sua trajetória como atriz, as suas referências teóricas, a sua condição de mulher em um mundo perfidamente machista, o modo de operação da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, os conceitos éticos do coletivo, as dificuldades pelas quais o grupo passou para conquistar seu território. Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência trata da nossa existência coletiva e do acontecimento da arte na vida. É norteado pela partilha do sensível e do conhecimento. Insinua-se como um ritual que tenta unir o postulado estético e político de Bertolt Brecht com a busca medular de Artaud.

À medida que a conversa acontece, somos chamados a fazer parte do ritual proposto por Tânia Farias. Somos acariciados por seus gestos, sua voz e suas histórias, que deixam de ser a história de uma atriz e da sua busca poética para se tornar a nossa história, a nossa luta. O que temos aqui é o atual, o contemporâneo explicando a ideia de acontecimento. Não apenas como fato singular, sentido único ou novo, mas como força e pensamento da diferença, como exposição do horizonte que mostra as impurezas e purezas do sentir, que mostra as experiências insólitas, que perturbam porque ambivalentes e excessivas, mas que também revolucionam porque estão calcadas no poético.

Dessa forma, o acontecimento reverbera, amplia-se, coagula-se em teatralidade, muito por causa da experiência de Tânia Farias. O conceito de acontecimento também pode ser pensado,segundo estudos de Erika Fischer-Lichte e David Davies, como defesa de uma arte que é uma ação em curso. Uma arte que abdique das categorias tradicionais de análise, a saber: a hermenêutica, a semiótica e a crítica estética vinculada à poiesis. Ao crítico, no modelo sugerido, cabe a experiência da ação em curso e o abandono das certezas teóricas. Só é possível olhar, ler e viver Evocando os Mortos considerando esse abandono teórico, porque a dimensão humana viva abdica de teoria. A dimensão humana é toda sensória, corpo que é todo tato, alma que é toda poesia vivida, muitas vezes poesia arduamente saqueada, rompida, usurpada. Por isso é preciso evocar, trazer e buscar nossos mortos e estampá-los cruelmente na vida. Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência se faz ritual, resistência, manifesto criativo e destino de liberdade. Tânia Farias é acontecimento que nos acontece.

Para além de revelar os modos com os quais compõem suas atuações e os conceitos que atravessam a sua pesquisa e da Trupe, Tânia Farias conversa com o espectador, acaricia o público e convoca-nos a partilhar, a comungar o teatro, a vida, as nossas alegrias e tristezas. Não seria exagero dizer que ela emancipa o espectador, tratando-o como parte sensível da sua experiência, tal qual propõe Jacques Rancière nos livros O Espectador Emancipado e Partilha do Sensível.  

Ficha Técnica:
Criação: Tânia Farias, com base em quatro personagens de espetáculos da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
Concepção e Atuação: Tânia Farias
Produção: Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
Operação de luz: Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz

Evocando os Mortos - foto Marcos Porto

Artistas reconhecem a relevância do Festival Toni Cunha

Chapeuzinho Vermelho
"Que Itajaí viva por muitos anos esse grande evento das artes cênicas". São com essas palavras que Henrique Gonçalvez, integrante do Projeto Gompa e Rococó Produções (RS), chega a Itajaí para apresentar pela primeira vez o espetáculo "Chapeuzinho Vermelho de Joel Pommerat". A peça integra o 5º Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha e será apresentada terça-feira (24) no Teatro Municipal.

Segundo o ator, é cada vez mais raro encontrar eventos que fomentam a cena cultural e incentivam o trabalho artístico em âmbito nacional. Itajaí é reconhecida pelo já tradicional Festival Toni Cunha e teve 414 grupos inscritos para participar. Destes, 17 foram selecionados pela curadoria.

"Integrar a programação do festival em Itajaí reacende a chama da esperança. Precisamos muito desse intercâmbio cultural, pois todos saem ganhando: artistas, organizadores, patrocinadores, comunidade local e, principalmente, o teatro", reforça Henrique.

A companhia do Rio Grande do Sul propõe uma montagem contemporânea do clássico infantil Chapeuzinho Vermelho, a partir do texto do dramaturgo francês Joël Pommerat. O espetáculo propõe o encontro da criança com o risco frente ao desconhecido. O espetáculo inicia às 20h e é indicada para crianças a partir dos sete anos de idade e também adultos. Os ingressos, à venda na bilheteria do Teatro Municipal, custam R$ 20 e R$ 10.

O Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha é bianual e faz parte do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac / Lei Rouanet), com patrocínio de Lojas Havan, Brasfrigo S.A., Banco do Brasil e Bompack. Esse ano conta com uma programação para toda a família com quase 30 espetáculos.

Terceiro dia
Além de “Chapeuzinho Vermelho”, outros dois espetáculos, uma oficina e uma roda de conversa compõem a programação de terça-feira (24) do Festival.

O dia começa às 9h com a oficina de voz com a atriz Juliana Galdino, integrante da Cia Club Noir (SP). Direcionada a atores e atrizes já experientes na área teatral, a proposta é trabalhar A Voz como ferramenta de construção do tempo, do espaço e do imaginário.

O espetáculo “Pô!Ema - criação poética para crianças”, do grupo local Eranos Círculo de Arte, integra a Mostra Local com apresentação na Casa da Cultura Dide Brandão. Serão duas sessões, às 15h e 16h, com entrada gratuita. O espetáculo é indicado para crianças em fase de alfabetização.

Às 21h, o Grupo Risco de Teatro (Itajaí) apresenta o espetáculo "Primeiro Milagre” na Itajaí Criativa - residência artística. Carregado de ironia, a peça apresenta temas como segregação racial, jogo de poder, fome e a diferença de classes sociais a partir do texto “Il primo miracolo del nino Gisus” do italiano Dario Fo (Prêmio Nobel de Literatura em 2007).

PROGRAMAÇÃO OFICIAL

Dia 24/10 (terça) - 9h às 13h
Oficina
A Voz como ferramenta de Construção do Tempo, do Espaço e do Imaginário
Juliana Galdino - Club Noir (São Paulo – SP)

Sinopse: O encontro vai proporcionar aos atores a possibilidade de descobrir novos e inaugurais sentidos em uma obra, descolando-se de conteúdos e formas hegemônicas. Cada participante trabalhará com um pequeno texto, sobre o qual a Orientadora procederá uma série de intervenções, visando uma modulação mais ampla (e singular) do tempo e do espaço, através de desvelamentos insuspeitados das palavras – transformando- as em rizomas no imaginário do espectador.

Local: Casa da Cultura Dide Brandão
Classificação Indicativa: 18 anos
Duração: 12 horas - 15 vagas. Oficina indicada para atores e atrizes.
Observações: Estende-se nos dias 25/10 e 26/10, mesmo horário. Inscrições via currículo pelo email festivaltonicunha@gmail.com, até o dia 19/10.
Valor: GRATUITO
Juliana Galdino em cena - foto de Viviane de Paoli

Dia 24/10 (terça) - 15h e 16h
Mostra Local
Espetáculo: Pô!Ema - criação poética para crianças
Eranos Círculo de Arte (Itajaí – SC)

Sinopse: Em “Pô! Ema” crianças em fase de alfabetização encontram em um ambiente intimista, uma escritora em crise que sente que sua inspiração e suas poesias estão 'sumindo'. Com a ajuda da plateia ela descobre que na verdade uma Ema (em projeção digital interativa) está se alimentando de seus poemas. As crianças são estimuladas a criar junto com a escritora poemas fresquinhos para alimentar a dona Ema e seus filhotinhos.

Local: Casa da Cultura Dide Brandão
Classificação Indicativa: Para crianças em fase de alfabetização
Duração: 35 min
Valor: GRATUITO - retirar ingresso uma hora antes


Dia 24/10 (terça) - 17h
Roda de Conversas: Diálogos sobre a Cena

Sinopse: Com a presença de Toninho do Valle e Marco Vasques, este será um espaço para trocar impressões sobre os espetáculos assistidos durante o festival, com ênfase na produção local. Mais do que um espaço de avaliação, é um momento para exercitar o olhar sobre o fazer teatral, seus caminhos e conceitos. Um momento de encontro aberto aos artistas, estudantes de teatro e também para o público interessado em saber mais sobre os modos de produção no teatro.

Local: Casa da Cultura Dide Brandão
Classificação Indicativa: Livre
Duração: 60 min
Observações: Espaço indicado para estudantes de artes, atores e interessados em processos criativos.
Valor: GRATUITO

Dia 24/10 (terça) - 20h
Mostra Nacional
Espetáculo: Chapeuzinho Vermelho de Joel Pommerat
Projeto GOMPA e Rococó Produções (Porto Alegre – RS)

Sinopse: O espetáculo propõe o encontro da criança com o risco frente ao desconhecido, tratando de temas como o medo, o fascínio da passagem do mundo infantil ao adulto, a solidão e as relações familiares. São três gerações de mulheres solitárias: a menina, a mãe e a avó. Além destas temáticas, uma segunda camada de leitura é proposta ao público adulto, englobando questões como o abandono, os jogos de sedução, a manipulação e a manifestação de nossas sombras (nossas próprias obscuridades, nossa face mais subjetiva e escondida, mas que também nos caracteriza). É na ruptura destas dualidades que a linguagem do espetáculo se constrói.
Local: Teatro Municipal de Itajaí
Classificação Indicativa: A partir de 07 anos
Duração: 50 min
Valor: R$ 20 inteira e R$ 10 meia


Dia 24/10 (terça) - 21h
Mostra Local
Espetáculo: Primeiro Milagre
Grupo Risco (Itajaí – SC)

Sinopse: A ironia é trazida para a cena através do texto “Il primo miracolo del nino Gisus” do italiano Dario Fo – prêmio nobel de literatura 2007. Tendo como temas a segregação racial, o jogo de poder, a fome e a diferença de classes sociais, a história narra os primeiros nove anos da vida de Jesus e seu primeiro milagre. Depois da família sagrada ser exilada, Maria e José trabalham duro para cuidar de Jesus, que foi crescendo e entendendo seus poderes. Amava seus pais, mas sofria com o preconceito dos outros meninos. Então teve a ideia de fazer voar passarinhos feitos de barro para poder brincar e jogar com as outras crianças. O filho do patrão da cidade, tomado por ira e inveja, acaba destruindo os passarinhos. Primeiro Milagre vai além de elucidar uma história milenar, ele trata de temas que se mantêm fortes até os dias de hoje: racismo, miscigenação, ego e a falta de habilidade das pessoas em serem humanas.
Local: Itajaí Criativa Residência Artística
Classificação Indicativa: Livre
Duração: 50 min
Valor: GRATUITO - retirar ingresso uma hora antes

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Crítica: Primeiro Milagre

foto: Marcos Porto
PRIMEIRO MILAGRE – A IRONIA PROMETIDA 
por Marco Vasques

Toda a obra de Dario Fo, iniciada no começo dos anos de 1950, está calcada na sátira política e social. Ele é uma das vozes mais pertinentes contra os sistemas opressores e corruptos que se apossam dos governos e lá ficam a custo de mentiras, negociatas e jogadas escusas. Ficam a qualquer custo, ainda que o preço seja a marginalização do humano, a instauração do inumano. Por isso, Dario Fo se tornou um impertinente, uma pedra no sapato das agigantadas estruturas de aprisionamento.

Trata-se de uma dessas vozes artísticas que se faz cada vez mais necessária de se ouvir e ver. Mesmo canônico, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1997, Dario Fo nunca se encaixou nos protótipos e estereótipos dos escritores reclusos ou distanciados. Engajar-se, comprometer-se, dizer e dizer-se o tempo todo era a sua grande característica. Teatral por essência, ele sempre fez esboços de suas tramas na pintura, depois apresentava suas ideias no palco e só após esse processo é que escrevia. Entendia a escritura como uma consequência da vida, da existência, não o contrário.

Talvez por isso, seu teatro tenha uma carga tão forte de improviso, coloquialidade, inventividade que fazem do humor de Dario Fo uma linguagem muito específica. Dario Fo cria muito sobre os mitos, as lendas, as histórias populares e religiosas. As fundações do que somos é o espelho de suas indagações sobre o que nos tornamos. Esse é o caso de Primeiro Milagre, texto-roteiro no qual ele faz uma releitura do nascimento de Jesus Cristo e do seu primeiro milagre, a partir de um evangelho apócrifo de Mateus.

Foi Primeiro Milagre, montagem do Grupo Risco de Teatro, que fez a abertura da Mostra Local, no Festival Nacional de Teatro Toni Cunha. A proposta do grupo, para além da fábula, é a de evidenciar as questões urgentes e presentes nas sombras de nossos dias. E quais seriam essas questões? No final da sinopse, o Grupo responde: “Primeiro Milagre vai além de elucidar uma história milenar, ele trata de temas que se mantêm fortes até os dias de hoje: racismo, miscigenação, ego e a falta de habilidade das pessoas em serem humanas.” Ressalte-se que ficamos na dúvida quanto à miscigenação nessa lista. A miscigenação seria um problema como os outros elementos? Não estaria o grupo querendo, no caso, se referir à xenofobia? De qualquer forma, não nos parece que a miscigenação tenha sido um dos temas abordados por Dario Fo nessa obra.

foto: Marcos Porto

Formado por um coletivo jovem, a inquietação move os experimentos do Grupo Risco. No entanto, em Primeiro Milagre, encontramos uma emulação com o texto. Uma quase divergência com a estética de Dario Fo, que nunca poupou a sociedade de suas cruezas, revelando-as da forma mais despudorada, porque é na bufonaria, na destruição das estruturas opressoras e no questionamento das instituições mantenedoras da voz dominante que se assenta o seu verbo e a sua ação. Primeiro Milagre é uma dura crítica à construção do imaginário cristão e, também, de suas fabulações. É uma ficção que tem por objetivo intervir na realidade de uma ficção que se solidifica e se perpetua mundo afora. Dario Fo é um italiano que sabe muito bem das perversões santificadas pelo catolicismo raso e defensor de uma sociedade segregada, opressora e machista. Por isso, não há piedade e muito menos lirismo em sua proposição.

A montagem do Grupo Risco apresenta um caminho intervalar, um caminho que se desencontra, em muita medida, com a proposta de Dario Fo. E por quê? Em primeiro lugar, o riso que se apresenta não se aproxima da acidez e da crítica que Fo imprime em seu texto, a opção foi por organizar o trabalho a partir de um riso caricato, um riso fácil mesmo, que não nos deixa aquele sabor de desespero e de destruição que é comum ao bufão. Isso fica evidente na reação do riso expresso pelo público, um riso dilatado e suprimido de agruras. O grotesco sequer se apresenta. Há um riso afrouxado, calcado num realismo exagerado, algo típico da comédia comum, o que acarreta um esvaziamento da força do texto e, por consequência, da atuação de Rodolfo Lemos.

Embora ator de muitos recursos e com possibilidades de adentrar efetivamente nas cruezas fraturadas de Fo, a direção do espetáculo se mostra titubeante com as intenções do texto. Existe um lirismo no espetáculo distanciado da sua força expressiva originária. Não há espaço para compaixão e lirismo no que a dramaturgia traz. Aí surgem perguntas: no que exatamente o espetáculo toca? O que está a criticar? Qual o seu propósito? O trabalho não se arrisca na seara de destruição inerente a um bufão, que nada respeita. O lirismo, entoado pela música que inicia e termina a partitura cênica de Primeiro Milagre entra em conflito com a proposição da obra.

Somam-se a isso momentos delicados, e são delicados justamente porque o bufão não entra em cena. Tais como a ideia de um José, com sotaque nordestino, e com uma feição que afirma o preconceito alcunhado no senso comum, isto é, da preguiça e indolência daquela gente. É preciso que a ironia prometida aconteça, para que a cena em que o negro é afrontado e humilhado não deixe dúvidas ao espectador que se trata de uma crítica mordaz ao preconceito, não uma possível afirmação dele. Com isso não queremos dizer que a intenção de Grupo Risco é a de afirmar preconceitos, mas que a promessa de combatê-los ou não se efetiva plenamente ou deixa margem para o pensamento dúbio sobre questões tão afloradas na atualidade (vide os recentes debates em torno da obra cinematográfica Vazante, de Daniela Thomas).

Sim, Primeiro Milagre atravessa o preconceito e o bullying que Jesus sofre, mas esse não é o único ponto-âncora da obra. Há uma discussão, que a montagem escolheu por não acentuar, que é a sátira explícita de um dos mitos fundadores da fé ocidental. Num momento de agigantamento de instituições religiosas que se apoderam da fé alheia com discursos fascistas e com um intuito único de ampliar as desigualdades sociais e mercadológicas, não jogar luz sobre a questão e ficar ancorado na experiência da infância de Jesus faz com que todas as tramas de autoridade, de assédio, de abuso de poder e suas variações sejam quase que suprimidas. E, por isso, a ironia aterradora prometida, não se realiza na cena, embora tenhamos que destacar o trabalho de atuação empreendido por Rodolfo Lemos. O Grupo Risco de Teatro tem talento e competência para redimensionar Primeiro Milagre e investigar caminhos que possam potencializar a acidez, a crítica e nos afetar com um riso que ultrapasse a fronteira da docilidade.

foto: Marcos Porto

FICHA TÉCNICA

Direção: Claudia Sachs
Atuação: Rodolfo Lemos
Sonoplastia: Natália Pereira e Rodolfo Lemos
Figurino: Rafael Orsi de Melo
Iluminação: O grupo
Produção: Grupo Risco de Teatro